Crônica: Café, brigadeiro e uma banana pro Jamie Oliver

Crônica: Café, brigadeiro e uma banana pro Jamie Oliver

O café vem com o agrado de uma pazinha, dessas de sorvete, só que com brigadeiro. Bebo devagar, presenteando a língua com um morno banho castanho escuro, castanho acre, para depois adoçá-la, num “morde assopra” sensorial aromático, líquido e cremoso. Café e chocolate. Brigadeiro numa pazinha. Brigadeiro num copinho. Brigadeiro numa colher… Brigadeiro, talvez o doce brasileiro por excelência.
Continuo a beber e, sem grandes razões, me ocorre que Jamie Oliver, em sua vinda ao Brasil em 2014, não gostou do nosso brigadeiro. Franzo a testa, desconfortável, enquanto trago à tela mental a imagem do famoso chef inglês empurrando um prato com nossos doces típicos, adjetivando-os com palavras pouco respeitosas e até chulas. Lembro que no prato havia também um quindim, e que o gesto tão unkind de nosso ilustre hóspede teve como suporte a infeliz gargalhada da entrevistadora que lhe oferecera os quitutes num gesto inseguro, um tanto bajulador, como a pedir desculpas pelas nossas tradições. Como a pedir desculpas por sermos portugueses e gostarmos de gemas adocicadas. Por sermos negros e termos gosto pelo coco em nossas mesas. Por sermos muito misturados e trazermos no sangue o melaço dos engenhos e dos canaviais que construíram boa parte de nossa história.
O pensamento voa, rápido, e ainda estou no meio da xícara a olhar o brigadeiro e a pensar se o chocolate deste é belga, meio amargo e qual a sua porcentagem de cacau, se a cozinha do local proporcionou um bom equilíbrio entre o melado e o rústico ao paladar da clientela. Brigadeiro gourmet. Brigadeiro amigo, fiel companheiro a unir mulheres que riem ou choram às colheradas em torno de uma panela quente. Doce confidente. Doce de união, a juntar comadres risonhas fazedoras de negras bolinhas. Doce de festa, de memória das boas infâncias. Doce apaziguador, a acalmar os desvarios femininos em dias de hormônios destemperados. Penso que se estou num dias destes, ponho as mãos nas cadeiras e ensino ao ilustre chef a ter boas maneiras na casa alheia e, de quebra, à sua servil entrevistadora, senão a se dar o respeito, pelo menos a respeitar nossas identidades. Em dias normais, o convidaria à minha casa, para quebrarmos um coco, ralá-lo, separarmos as gemas, misturarmos o açúcar e dar a tudo o devido descanso para que não desande a cremosidade saborosa da negritude lusitana que levaremos, em banho-maria, ao forno.
Dou o último gole e, após tamanha viagem, pego a pazinha com a devida pompa e circunstância, pousando com delicadeza a massa castanha sobre a língua. Estranho. Nada da viscosidade acentuada e escorregadia, ou do esperado algo encerado que demora em desmanchar-se na boca. Nada de chocolate, seja ao leite ou mais forte. Um gosto de fruta tendendo ao caramelo. Me concentro mais e o reconhecimento não tarda. Averiguo que o tão homenageado brigadeiro na realidade era, e foi o tempo todo, uma bananada. Uma castanha e escura bananada, consistente e macia, pouco doce, com o sabor da polpa bem destacado. Surpresa, me divirto. Só me resta rir e apreciá-la.
Curiosa, chamo a garçonete, peço mais uma pazinha e destravo a matraca – que na verdade sempre anda solta –, a perguntar se a bananada é de fabricação própria, ela diz que sim, pergunto onde é produzida, e seguro ainda a vontade de indagar sobre os fornecedores da banana, imaginando que já estaria indo além do campo de conhecimento da simpática atendente. Emendo ainda, avançando, querendo saber sobre o café ali servido, qual a marca, a procedência do grão, enquanto vou alegremente usufruindo da minha pazinha extra da bananada que se apresenta como uma boa companhia à nossa bebida de todo dia.
Café com banana. Fico tão feliz que até penso em ensinar também ao Jamie Oliver a fazer uma bananada caseira, sem os requintes da que ali experimento, coisa simples, com aroma de lar, recendendo a cravo e canela. Serviria gelada, acompanhada de um bom pedaço de queijo Minas bem fresco, moderado no sal. Serviria com um agradável café selecionado. Nem cobraria pelas aulas. Tudo na amizade, assim, como a doce gentileza de dar uma bananada a quem fez por merecer uma generosa banana.
Foto: Elis Rosário

10 Comments

  1. Moni

    Uau! Jamie bem mereceria mesmo! Não a bananada, mas o fruto. E se possivel levantado em prumo, frente à face! Será que esse dado cultural ele entenderia? 🙂
    Parabéns pelo texto. Fiquei curiosa pra saber que café com banana é esse? Onde vc tomou? Como foi extraído, de onde veio, quem pensou nesta combinação maravilhosa, se a torra era frutada, se pensaram previamente nesta harmonização… Bem, minha curiosidade é proporcional ao meu amor ao café! Beijins cafeinados prô cê!

  2. rosana esperança

    Adorei! Deixa ele com seu chefé e achando que come bem…. porque cozinhar em 30 minutos é fácil sem lavar as frutas, verduras e legumes o difícil mesmo e conviver com os agrotóxicos!!! Sorte que ele ainda tem a opção do peixe com fritas must da culinária inglesa e que deve demorar uns dez anos para aprender e dez para morrer de ataque cardíaco. Agora se ele quiser ser mais feliz ….Pode fazer como a rainha da Inglaterra … e colocar um pouco de pinga no chá das 5

  3. Valéria Estevão

    Me lembro! Foi no Saia Justa, ano passado! Na hora não levei por esse lado, mas agora lendo o seu texto, fui atrás de rever a entrevista e realmente fiquei com vontade de também dizer umas verdades ao Jamie Oliver e principalmente a apresentadora, a jornalista do programa. Tomei a liberdade de colocar o link do youtube com a entrevista, é bem curtinho. https://www.youtube.com/watch?v=XeqN5JQT0F8

  4. Georgeana

    Barbarelaaaa!!!

    Fazia tempo que não lia uma crônica sua….desdeeeee …deixa pra la!!!!! Mas só sei que essa me remeteu as nossas “acirradas” discussões que normalmente terminavam em risadarias e baixariassssss hilariassssss…. Saudade de você, do café e desse brigadeiro/bananada….
    Beijos
    geo

  5. Edjane

    Belíssimo! A felicidade nos dá esse poder de operar o impossível nas pessoas. O prazer dá sensação de ares do mundo e Café combina com tudo.. E James Oliver, um mero coadjuvante.

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