Crônica amorosa de livraria

Crônica amorosa de livraria

Dia de chuva, dia de semana. Os livros ao redor na espera do moer do grão do café negro que escorre para a xícara. Madeira ao redor. Madeira a amparar os livros, madeira a formar e a aconchegar o ambiente. Madeira a amparar romances. Botafogo, ao lado do cinema. Botafogo, sítio de cinemas. Dia de semana, dia de foco. Horário comercial. O café chega à boca, aquecendo a chuva de inverno. A madeira aconchega. A madeira ampara e passa a tocar como um tempero inesperado ao café que, se só queria cumprir o seu papel corriqueiro de fazer o dia seguir, agora estaca, emociona-se, e muda seu rumo, transformando sua função ordinária nas mesas ao redor do mundo. A madeira trina numa guitarra além mar. Madeira na forma de um coração. Madeira na forma de uma guitarra. A água quente e negra que desce em sua habitual cascata interna a mudar a lógica do dia, da hora, e das funções, para emocionar um coração num momento entre livros, num instante entre romances, num encanto de amor. O canto a contrair os olhos, o rosto, a reprimir o açúcar e o sal da água que brotam da palavra portuguesa por excelência, que com força e beleza aguarda pelas mãos do bom tocador dessa forma de uma guitarra que batuca numa caixa de carne e ossos entre instrumentos outros vitalícios. A mão tateia em busca da pena por ora ausente, na busca de aplacar o grito da palavra única que quer ser ouvida e atendida em meio ao mundo que gira, em meio ao mundo que urge em coisas outras e diversas que sucumbem e desvanecem ante as premências definitivas da alma. A palavra única a lutar na demonstração de sua grandeza, seu sítio fundamental, entre pés que caminham apressados nas horas que, sempre que podem, rebelam-se à imposição de selvagem labuta que lhes é imposta, tentando adestrar a essência da vida com tempos e minutos específicos e bem marcados, impondo ao amor uma lógica insana que poda os mais belos impulsos humanos. A guitarra sente a vibração de cada corda sua e ali escolhe permanecer, a desfrutar a melodia que de si emana, reconhecendo a materialidade da mão ausente que a toca. Café negro, açúcar escuro. O mineral da terra a fixar-se num porto seguro, transmutando águas de chumbo num rio de ouro. Da terra se faz a madeira e o papel. Da terra se faz a árvore, o azeite e o vinho. Da terra se faz o esteio que é o mundo . Da terra se faz o mundo novo que surge e segue. Dia de chuva, dia de semana. Horário comercial. Capital carioca. Botafogo, sítio empresarial. Ao amor só importa o amar. Ao amor só importa o além mar. A mão paga o café e segue seus passos em busca da pena, em busca de eternizar esse espaço sublime onde a ternura se faz infinita entre acordes de guitarras que, entre oceanos, harmonizam-se numa canção composta em dueto, composta entre mãos que tocam-se entre terras, que agarram-se entre oceanos, dando perenidade à boa canção que vem tocando a misturar sangues, carnes e povos ao longo de séculos, ao longo de descobrimentos que ainda encontram caminhos de fazerem-se novos entre pés que pisam numa velha e cansada moderna contemporaneidade, tornando gratos o eterno café, a eterna madeira e a antiguidade do mundo que se renova nas horas consagradas ao amor.

(Inspirada na música “Guitarra”, de Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão, iterpretada por Madredeus) Rio de Janeiro, tarde para noite do dia 26 de julho de 2014. Livraria Prefácio – Botafogo