Crônica: O tédio da barata

Crônica: O tédio da barata

É o tempo de retirar e recolocar a tampa rapidamente. Um estado de alerta, uma certa adrenalina, como a dos ancestrais mais longínquos em tempos de sobrevivência em campos hostis. Instinto de autopreservação num grau bastante elevado. Puxo o ar, os olhos ainda pregados na tampa, e vou respirando, retomando o espaço do banheiro como meu, e como algo seguro. A tampa, a tampa de fato me protege. Vou aos poucos retomando minha função de até há pouco. Rodo na mão, chão molhado, pés descalços e a paciência a trabalhar: o serviço será mais demorado. O escoar da água pelo ralo tampado será mais lento, pelas micro frestas das laterais, levará, quem sabe, o triplo do tempo. Mas nada, nenhuma força, pressa ou ansiedade será capaz de me fazer remover novamente aquela tampa.
Penso: “será possível?”. Mas da minha mente nada demove a nítida impressão, a recém-memória ainda fresca da visão do ser que parecia meditar na cavidade do chão do banheiro. Creio ter tido o tempo de visualizar inclusive as antenas, no átimo de segundo que ocorreu entre o tempo de abrir e fechar a tampa do ralo. O radar é instantâneo, como uma ferramenta exata, perfeita na detecção do inimigo. Um radar da mais alta tecnologia.
“Será possível?” Um mês antes, no mesmo local, cumprindo a mesma tarefa: a mesma situação. Puxo a água com o rodo, destampo o ralo para que seu escoar seja mais rápido, mais eficaz, e eis que vejo uma sombra, um formato castanho instantaneamente reconhecido. Fecho o ralo como um raio, mas ainda na dúvida. O susto foi maior que a certeza. Falta coragem para a averiguação. Jogo água sanitária pela fresta – o cloro é sempre corrosivo – para desencorajar o ser que penso ter visto, manda-lo de volta para as profundezas dos canos possivelmente escalados por ele, até esse ponto no segundo andar da casa. A vizinha vem em meu socorro, destampa o ralo e, ao cutucar a forma, o corpo suspeito cai e afunda na água empoçada, fazendo parecer ser aquele um alarme falso, como um vício de um radar já meio paranoico. Fico bem.
Mas então, um mês depois, a mesma sombra outrora caída, no mesmo ponto, na mesma curva, assoma ante o meu retirar desavisado da tampa do ralo. Com um agravante: desta vez quase juro ter visto as antenas. Fico ali parada. A possibilidade de destampar o buraco, mesmo que com o cabo do rodo, é nula, e eu bem sei que a vizinha está viajando. Estou só. Vou dando o meu jeito, fazendo meus malabarismos, para secar a água do piso lavado do banheiro. O trabalho torna-se lento, cuidadoso, alerta. “Será possível?” Um mês, um mês inteiro vivendo no mesmo local, numa espécie de cilindro com dez ou quinze centímetro de diâmetro? Será que caiu n´água e, passando a tontura do cloro antes encharcado, retomou exatamente o mesmo ponto e ali permaneceu, sem mais? Sem mais nada, nenhuma outra ambição na vida, nenhum gosto ou desejo?
Um ser rejeitado. Um ser no tédio imposto pelo temor das consequências de tal rejeição. Um ser que veio ao mundo para sofrer uma perseguição, cujo tamanho é condizente com o da profusão de sua própria espécie pelas entranhas mais sombrias do mundo. Tenho dó. Sento na tampa do vaso e fico ali, derramando um olhar de compaixão sobre o quadrado chato e metálico, que encobre, poupa meus olhos e minha mais irracional emoção do inimigo inexistente, que na minha imaginação ganha o contorno da realidade incontestável do perigo maior. Porém, a compaixão desprovida de coragem me cai como um aleijão. Sou completamente apta para executar qualquer movimento, mas me aleijo, incapaz do gesto de libertar o ser, ali, talvez inexistente, de sua pena de tédio e circunspecção. Uma pena compartilhada, na medida que permaneço tão prisioneira ao permanecer imóvel, apavorada com o risco de um ser, na realidade, inofensivo, e quando retomo os movimentos, é para balançar a cabeça, como quem busca sair de um torpor sem razão, e vou terminando o serviço, enxugando o chão com um pano que torço dentro do box, evitando qualquer consideração além da de que ali estou no meu espaço, no meu banheiro, e segura.
Sobre o tampo prateado do ralo, repouso um singelo e felpudo tapete cor de rosa, como a dar ares de sonho ao submundo que há pouco tentara me sugar. Como a dar ares de beleza e conforto ao ponto de tédio e temor que me penaliza com uma certa escravidão. Apago a luz, e vou ver se há algum bom filme para assistir num dos quinhentos canais que tenho na televisão.
Foto: Elis Rosário

5 Comments

  1. Arnaldo

    Seu texto me fez fazer uma viajem no conto de Clarice Lispector “Paixão segundo G.H.” (1964) exatamente na cena dela encurralada no quarto da empregada entre uma barata enorme na porta do armário e a porta do quarto.Tensão total se torna um momento de profunda reflexão existencial na fragilidade da condição humana.

    Te desejo um excelente Ano Novo e um belíssimo Natal, Parabéns mais uma vez

    Abraços

    Arnaldo

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *


*