Crônica: Eitas, hirtas

Crônica: Eitas, hirtas

Hirtas, esta é a palavra que melhor expressa. Poderiam ser também eretas, tesas. Mas escolho um adjetivo um pouco mais elaborado para falar das velas vermelhas, tendo em seus corpos, em alto relevo, cada uma um verde pinheiro, cada uma, em seu respectivo castiçal, posicionada em num dos lados da minha árvore de Natal. Hirtas. Não mais.
Enquanto tomo meu café da manhã devidamente tardio neste dia 25 de dezembro, sentada à mesa, não consigo despregar os olhos das curvas mal desenhadas, que aos poucos foram se manifestando, transformando minhas simpáticas velas natalinas, num algo disforme, cabisbaixo, contorcido. Tem sido um processo, um entortar-se um pouco mais a cada dia, um derreter-se com os pavis intactos, sem contato direto algum com o elemento fogo, um derreter-se com o mundo, num planeta que derrete.
Minha árvore e decoração de fim de ano de ano não possuem, sequer flertam, com bonecos de neve, renas, ou quaisquer alusões ao inverno no hemisfério norte. Abuso dos anjos, borboletas, estrelas, frutas vermelhas, cores quentes, brilhos e luzes junto a um rústico presépio feito com palha de milho. É verão no Rio. É verão em quase todo o Brasil. E junto à minha rústica tropicália, as hirtas velas. Não mais. “Eita, é o calor…”, penso eu, enquanto testemunho esse envergar paulatino, a vela natalina a transformar-se em vermelha margarina, quem sabe um possível produto comestível que os nossos criativos, bem dispostos e premiados publicitários habilmente transformariam num alimento atrativo a encher os carrinhos dos supermercados. Me abano: “Eita, é o…”
Saio atrás de um café expresso, mas a minha pasticceria habitual, como era de se esperar pela data, está fechada. Eu poderia procurar um pouco mais, mas o sol já castiga e tomo o caminho de casa em busca do abrigo do ventilador e do ar-condicionado. Fico pensativa, pois sempre gostei do calor, do verão. Sempre estranhei as queixas de minha mãe com a estação da luz, cujas temperaturas ela alegava terem o poder de tirarem-lhe o ânimo, enquanto eu sentia justamente o oposto. Quando? Quinze, dez, sete anos atrás? Quando o calor começou a me incomodar? Fui eu que mudei? Ou o calor tem mudado? Um planeta que…
Algumas linhas de medicina oriental trabalham com conceitos – que não domino – de que ao longo dos anos nossos temperamentos vão transitando, transformando-se, num movimento totalmente ligado às nossas sensações físicas. Assim, as comidas e bebidas muito ácidas, que na infância e adolescência eu adorava – manga verde com sal, cítricos bem azedos, biri-biri… – agora uso com parcimônia, senão me causam um certo desconforto. Em contraponto, adquiri um gosto pelos sabores, digamos assim, mais rústicos, como os das sementes secas do cacau, ou dos chocolates com uma alta porcentagem de sua fruta de origem. Como o dos cafés mais encorpados, amenizados apenas com uma pequena quantia de açúcar mascavo. Passei a gostar de jiló.
Mas, e o calor? Quem mudou? Serão as velas de hoje, chinesas, feitas de matéria-prima menos resistente, perdendo a forma sob qualquer sopro tropical? Estará a minha própria parafina, trazendo um pouco da ótica oriental, vivenciando um novo temperamento ou então sentindo o peso dos anos e envergando ante ao que antes a estimulava, como este sol que mais parece um maçarico? Caminho buscando marquises, implorando por pequenos trechos de sombra e vejo que não estou só, pois todos nas ruas parecem fazer o mesmo. “Eita, é…”
Mas é verão no Rio, e lotamos as praias folheando jornais que nos falam do ameno inverno europeu, das secas e das altíssimas temperaturas que aqui enfrentamos. Hirtos, só os guarda-sóis. Um planeta… Enquanto isso, assino as petições da Avaaz contra o aquecimento global, me locomovo o máximo que posso a pé ou de bicicleta, separo religiosamente o meu lixo reciclável, faço compras evitando o uso de sacolas plásticas, economizo energia elétrica e acho que assim está bem. E acho que assim está bem pouco.
Não há mais como acender as velas, não sei nem mesmo como aproveitá-las. Na verdade elas estão feias e só as mantenho em meu cenário doméstico natalino, organizado com tanto capricho, pelo sentimento inexplicável de uma parceria sem nome. As velas derretem, as praias lotam, e eu mesma, aqui no ar condicionado, ando me achando um tanto desbotada e faço planos quase imediatos para dar a devida manutenção à boa marca do meu biquíni, símbolo maior feminino no nosso verão. “Eita…”
Pintura/Ilustração: Tatiana Antunes

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