Crônica: Espaço na van e Ed Motta

Crônica: Espaço na van e Ed Motta

“Se arruma, aqui que tá bom, aqui tá dez…” Nas minhas andanças pelas vans que há até bem pouco tempo cortavam indiscriminadamente a cidade do Rio de Janeiro, algo que vez ou outra me incomodava era a falta de critério na escolha das rádios que fariam a trilha sonora de nossos percursos, uma vez que o conceito de som ambiente era algo nebuloso e muito discutível nas mentes e gostos dos motoristas que determinavam o que iríamos ouvir, e na maioria das vezes o que era imposto aos passageiros eram as ondas agitadas das rádios, digamos assim, populares. Meditar, ler um livro ou pensar calmamente na vida eram ações que exigiam um certo malabarismo de concentração entre as falas gritantes de locutores desvairados e os sucessos agitados que disso seguiam. Axé, sertanejo, pagode e… “tem espaço na van, tem espaço na van…” Sim, Ed Motta.
Por isso a minha surpresa ao ler a recente declaração, na qual Ed afirma não reconhecer como seu um público mais popular – simplório, em suas palavras – que frequenta os seus shows pela Europa e Estados Unidos. Surpresa e espanto com o desconhecimento deste talentoso cantor sobre o expressivo número de fãs que ele tem angariado ao longo de sua carreira, cantando letras que dizem “pega o trem, vem pro baile ser feliz”, e com músicas presentes nas pistas das baladas e também nas trilhas das telenovelas, até porque creio não terem sido com poucos dígitos as cifras que ele deve ter ganho ao emplacar letras, sim, simplórias, que vêm atingindo diretamente esse mesmo público que ele esnobou, mesmo tendo se desculpado depois.
Contudo, dou a mão à palmatória e reconheço que sim, carecemos, como nação, de um mais abrangente repertório cultural, tanto no que diz respeito às bases mais anciãs e populares até às expressões mais sofisticadas e eruditas de nossas artes. E isso se passa em todas as nossas classes sociais, exigindo políticas culturais mais sólidas, um real compromisso de nossos governos – municipais, estaduais e federal -, eleitos por nós, com a nossa educação e também, e tão importante quanto, uma mobilização de nossa sociedade civil que muito folga em reclamar de tudo, mas sendo avessa a emprestar seu tempo e energia a alguma forma de contribuição direta nesse sentido.
O ilustre instrumentista prefere, e reconhece como legitimamente seu, o público brasileiro bem versado na língua inglesa, o que me lembra que estudamos inglês, pelo nosso currículo escolar, por pelo menos sete anos, e nos formamos no ensino médio sem termos ido muito além do verbo To Be e do Present Continuous Tense, e olhe lá. Pensando nisso, talvez Mr. Motta pudesse ceder gentilmente um pouco do tempo que ele passa dedicado à enologia e à gastronomia, voluntariando-se em alguma comunidade ou mesmo escola pública, trabalhando para um mais efetivo aprendizado de nossas crianças e jovens no idioma anglo-saxão.
Mas falo e mordo a língua, porque após acabarmos de passar por um ENEM no qual mais de quinhentas mil pessoas zeraram em redação, bem-vindo mesmo é quem traz esforços no real aprendizado e valorização de nossa língua materna que, muito mais complexa que esta outra, vem nos escorrendo pelos dedos, caindo no solo infértil dos que semeiam teorias de inclusão através do assassinato do nosso idioma. Teorias estas que vão contra às construções de discursos, textos e outras expressões que ousem ir muito além do nosso coloquial cotidiano, cada vez mais pobre, cada vez menos exigente de um raciocínio minimamente bem elaborado, coloquial este no qual versos como “gata de rua faz ronrron ao luar” caem como uma luva. Esse coloquial dito inclusivo, essas palavras fáceis, que nos desterram e isolam de nossa belíssima língua portuguesa, não tardando em nos colocar como seres balbuciantes, quase pré-históricos, carentes das ferramentas mínimas para uma boa e completa comunicação.
Mas se mesmo assim, o nosso Mr. Jazzista, quiser insistir num voluntariado pela língua inglesa, tudo bem, posso aqui já indicar algumas escolas em São Gonçalo e Duque de Caxias, se ele não se importar em sair do Rio, de qualquer forma, a região é metropolitana. Há, inclusive, como pensar um projeto mais elaborado e abrangente ao trabalho e aprova-lo em alguma lei de incentivo à cultura e buscar junto à iniciativa privada algum patrocínio, lembrando que para as celebridades a captação de recursos sempre é mais fácil, mesmo que a qualidade da ação cultural proposta seja discutível. Está certo que assim o trabalho perde a boa aura do voluntariado, mas sem problemas, desde que leve um real beneficio a quem o esforço venha a se dirigir. O bom desse formato é que dá até pra pensar num pró-labore para o digno e agora cantor-professor. Um pró-labore modesto, vale frisar, nada que se assemelhe aos seus cachês internacionais ou às vendas de CDs através da execução de suas letras nas vans desse Brasil que, ao contrário da música, sem espaço, levam seus passageiros em pé, apertados, expostos à insegurança das condições às quais se submetem na esperança de um ganho, mesmo que pequeno, nas fartas horas de deslocamento entre suas casas e seus locais de trabalho. Passageiros estes que podem ser também pais desses possíveis alunos. Passageiros estes que podem ser os próprios alunos, convictos em seus retornos à escola nas turmas de educação de jovens e adultos. Friso ainda que esta iniciativa vale para todo e qualquer cidadão.
Mas como tudo tem seu lado bom, as lamentáveis palavras do amigo Motta – após o tempo aqui dedicado a ele, já me sinto como uma amiga -, me trouxeram agora esta crônica, uma vez que tenho trabalhado no meu próximo romance e andam me faltando palavras para esses textos mais curtos, e tenho sido cobrada nesse sentido. Por isso só posso agradecer ao enólogo-instrumentista-professor-compositor a oportunidade pela inspiração por essas linhas que, não sei se estão à altura de sua vasta erudição, uma vez que eu, pobre mortal com um bom sangue nordestino a fervilhar em minhas veias, nutro um alto gosto pelas pistas de forró, sendo capaz de amanhecer o dia dançando ante um bom trio de zabumba, triângulo e acordeom. Mas pra compensar esta falta, prometo aqui enviar-lhe um exemplar do meu próximo livro, com as devidas e antecipadas escusas por ser escrito em português, mas que fala de café que, mesmo não sendo vinho, agora também é gourmet. Talvez ele goste.

4 Comments

  1. Cristiano

    Sabe aquela sensação boa de sintonia? De que alguém escreveu perfeitamente o que muitos estavam com vontade de dizer sobre algo, e até coisas que nem sabíamos que também queríamos ter dito? Estou sentindo. Que magnificas linhas. Muito orgulho de você amiga; a Bárbara mais baiana (de alma, sabemos) e a baiana mais bárbara que já conheci.
    Parabéns. Aguardando sua nova empreitada literária.
    Seu amigo e fã Cristiano Soldado

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