“Shakespeare e o jovem apostador”

“Shakespeare e o jovem apostador”

Início de semestre, chego no colégio Hervalina Diniz pré-acordada com a diretoria, coordenação pedagógica e parte do corpo docente que pacientemente seduzi (?) para o projeto. Chego no colégio para a distribuição dos livros e fazer uma fala aos alunos. Tudo corre bem. Na hora de dedicar os livros – definitivamente não me sinto bem com a palavra autógrafo – vou procurando conversar com os alunos individualmente, olhar em seus olhos, me interessar por eles, fazer perguntas, mesmo com a fila que se faz para que todos recebam seu exemplar devidamente dedicado. São tantos… São muitos… Como guardar tantos rostos? Como dar de fato o caráter único do breve momento que tenho com cada um particularmente?
Então, eis que me chega Lucas com uma postura curiosa, um misto de educado e marrento, a me dizer que estava recebendo o livro e cumprindo o ritual de entrar na fila e receber o “alô” simpático da autora por pura formalidade, basicamente cumprindo uma ordem da professora, acrescentando ainda que não gosta de ler, que nunca conseguiu ter paciência de ler um livro inteiro. Ainda simpática, mas também marrenta, faço a dedicatória no livro que ele me entrega, e devolvo-lhe garantindo que com o “O apartamento de baixo” será diferente. Ele duvida, me propõe uma aposta, que recuso, mas reafirmando a minha previsão recém-feita. Ele segue marrento com o livro nas mãos. Eu sigo simpática e interessada nos alunos que se seguem.
Pouco tempo depois retorno para filmar a leitura coletiva que está sendo feita no colégio. Documento o processo, colho alguns depoimentos de alunos e, quando já estou guardando o equipamento, o mesmo Lucas chega a mim, lamentando não termos feito a aposta antes sugerida. Ele refresca minha memória, e segue num lamento às avessas, porque, segundo ele, a aposta teria sido vencida por mim. Lucas adora o livro e, nos trabalhos desenvolvidos em sala que necessitam que alguns alunos tomem para si o papel dos personagens, Lucas é quem encarna o protagonista de sua turma. Lucas diz que agora é um leitor.
Num sábado de manhã cedo, chego à Xerém, no auditório da Marcopolo Rio, para dar um aulão de roteiro cinematográfico à alunos e professores. Ali está Lucas. É um dos alunos mais participativos do projeto e por isso é um dos escolhidos de seu colégio para fazer a visita guiada à Biblioteca Parque, na Central do Brasil, outra iniciativa do projeto.
Semana passada, caminhando a passos largos para o fim do semestre, o Hervalina resolve fazer um passeio por alguns pontos do Rio que são cenário do romance. Sou convocada para atividade. Ajudo a fazer o roteiro. Andamos pela Lagoa, Leblon, damos uma fugida à Praia Vermelha, que não tem nada com o livro, e seguimos para o centro da cidade. Arco do Teles, Praça XV, com direito a uma entrada no Paço Imperial. Faz calor, o sol parece bem disposto no céu e, já com a hora a avançar no meio tarde, a garotada começa a murchar, um tanto abatida pelo cansaço da caminhada que já se faz desde o meio da manhã.
Penso em abortar o momento final do passeio, no qual iríamos a uma livraria. A maioria deles nunca foi a uma livraria e achei que seria uma boa oportunidade para brindá-los com a experiência. Fico indecisa, com medo do tiro sair pela culatra, do cansaço interferir na fruição do momento, mas decido por dar continuidade ao plano e seguimos quase que em procissão pela Sete de setembro.
O ambiente da Livraria parece renovar o ânimo da garotada que se espalhada pelos três andares entre títulos mil. Procurando não interferir, vou fotografando cada um que me olha, ri, algumas meninas, fofas, ruborizam.
No terceiro andar, no canto, junto ao totem de CDs, com um fone nos ouvidos, encontro Lucas compenetrado, mergulhado no volume em suas mãos. Me aproximo de manso, agacho, fotografo. Ele nem me olha. Marrento? Concentrado? Tanto faz … Estico os olhos e vejo que, ao contrário do “O apartamento de baixo”, é volumoso o livro que o jovem apostador tem nas mãos. Bisbilhoto o título: “Shakespeare e a economia”. Saio de fino, achando melhor não atrapalhar. Saio sorrindo, com orgulho alheio. O apostador ali permanece. Não sei qual música ele ouvia, mas enquanto escrevo essas palavras, Jorge Drexler me diz cantando que nada se perde, tudo se transforma. Lavoisier há muito já o disse à humanidade. De algum modo, simpática e marrenta, eu disse o mesmo ao Lucas que recebia meu livro. E de outra forma, compenetrado ou marrento, Lucas me devolve a mesma norma, silencioso, com os olhos pousados nas novas linhas que chamaram a sua atenção.

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